Quanto, Vale?

Quanto, Vale?

Rompimento de Fundão
Rastro violento de lama e desolação
De um desastre que assolou a nação.

Processo suspenso
Indenização ausente
Nem prevista recuperação
Meses decorridos, e anos passarão,
Sem indício de punição.

Como depurar a ferida em carne viva
Se o drama e a destruição
Não valem um tostão?

Quanto, Vale?

Dezenove desvalidos sem vigor
Ainda causam a seus amigos dor
Contudo não retiraram do lucro o torpor.
A conclusão é simples, a vida não tem valor.

Bento Rodrigues
O distrito destroçado
Segue tratado com descaso.
Remanesce esperança entre as ruínas?
A vida inda segue, na decadência.

Quanto, Vale?

Rio Doce corre ainda turvo
Malditosa sorte transporta seu fluxo
Curso d’água de destino fatal
Seu foz desagua na impunidade
Enquanto drena a vitalidade
De homens humildes e peixes incontáveis.

Nesse ínterim, a presença
Do doloso empresário
Em tom arbitrário
Anula a sentença.

Aqui se fez, mas não se pagou.
O dinheiro com seu atroz poderio e imponência
Silenciou a justiça e a história apagou.

Qual valor atribuir?
E o preço a se pagar?
Quanto, Vale?
Nada.

Bruna Xavier de Moro

 

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Lavínias

Lavínia, mulher, liberdade em flor
Com suas pétalas arrancadas geme de dor.
Lavínia, violentada e mutilada
Com sua língua cortada foi silenciada.
Lavínia, o que passa em tua mente?
Estava áfona, mas em seu pensar havia
Imagens de pavor e agonia em torrente.
Que ato atroz! Decepadas também as duas mãos.
Com o horror inscrito no corpo, a aversão veio em profusão.
“Não, não hei de chorar.” Secaram-se as lágrimas.
“Não, não há solução.” Cansou-se das lástimas.
Lavínia, mesmo vítima, sentiu-se culpada.
Não pôde estancar o sangue que escorreu da alma.
E agora, o que fazer, se Lavínia já está morta?

Filomelas, não silenciem!
Bordem a história na memória
Bradem para que jamais seja esquecida.
Entoa, rouxinol, a liberdade com o teu canto.

Incontáveis séculos transcorreram-se
Desde que o mito Filomela foi por Ovídio foi contado.
Incontáveis anos transcorreram-se
Desde que o mito em Lavínia foi por Shakespeare recriado.
“Não passam de histórias de tempos primitivos.” Responderam.
Oh, que maravilha! Sim, o mundo mudou. Vejam as leis cordatas.
Vejam a tecnologia. Vejam as áureas amarradas da civilização!

Mas olhe bem, ali, transfiguradas, quantas Lavínias mutiladas!
Silenciadas, machucadas e aturdidas com o requinte de crueldade
Que o homem civilizado conservou do ascendente bárbaro.
Que tal? O que originou mito proveio da realidade.
Não espere mais, abra os olhos e veja a verdade.

Tristeza e desespero doem no peito,
A vergonha queima com ímpeto,
O pandemônio do corpo violado,
O sentimento de culpa consome e
Lavínia é pelas críticas crucificada.
Lavínia é governada pelo medo.
Lavínia escolhe a roupa com cuidado.
Lavínia se sente horrorizada ao sair sozinha.
Lavínia foi reduzida a nada.
Lavínia: mutilada e silenciada.

A árvore da civilização está caduca,
O mal enraizado apodreceu o caule:
Defendem o criminoso e culpam a vítima
Procuram um motivo que legitime o feito.
Como extinguir o infamante defeito?!
Estupro: vil, horrível, cruento e injustificável.
Não silencie ante o crime abominável.
Não compactue com o ato indefensável.

Lavínia, mulher, liberdade em flor
Mulher: beleza, luta, força, poder e clamor.

Bruna Xavier de Moro

05 de Novembro

Águas passadas e Mariana devastada não ficaram na memória.
A mídia silenciou, pois o assunto expirou a validade
E as pessoas esqueceram o triste ocorrido de ontem.
O povo tem memória curta, o presente já virou história.
E o incidente catastrófico foi resumido a meras águas passadas.
Ora, mas todos aqueles que protagonizaram o drama
Para sempre levarão a lembrança da lama
Que enterrou suas casas e sepultou suas famílias
Que agrediu a dignidade e extirpou vidas queridas
A lama do progresso que se tornou destruição e retrocesso.
O que temos agora? O Vale dos mortos, um lugarejo fantasma.
Águas passadas… Devastação ultrajante, persistente miasma.
Sofrimento banhado por uma avalanche, rejeito de lama.
E o que isto representa? O que representa?
Uma pedra no caminho da grande empresa
Ou um nada que se confirma com a impunidade?

Bruna Xavier de Moro

No Vale dos mortos

No Vale dos mortos
Entre as Montanhas de dinheiro
Corre um Rio de corpos
Arrastados pelo imundo aguaceiro.

Ganância, desleixo e despeito8Y4aJJ3
Imiscuíram-se e correm num só leito
De rastro destrutivo e percurso cruento.
O Rio dos mortos corre sem respeito
Arrastando um fluxo de dor e lamento,
Arrasando a superfície da mãe Terra.

A barragem sucumbiu à gana
A vida afundou na lama
A empresa nada na grana
Enquanto chora Mariana.

No Vale dos mortos
Entre as Montanhas de dinheiro
Corre um Rio de corpos
Arrastados pelo imundo aguaceiro.

Excrementos tóxicos, pesados metais
Os peixes não resistiram aos fluxos brutais.
Mataram as pessoas? Mataram.
Mataram o Rio? Também mataram.
Mataram, mas ainda assim lucraram.
Ó impunidade! Ó lamaçal! Ó atoleiro!
Enganaram-se, ó humanos ingênuos,
Quando piamente acreditaram
Que a vida Vale mais que o dinheiro.

No Vale dos mortos
Entre as Montanhas de dinheiro
Corre um Rio de corpos
Arrastados pelo imundo aguaceiro.

Bruna Xavier de Moro

Ordem dos imbecis

Há no âmbito virtual
Barbárie sem igual.
Ordem dos imbecis!
Plena de juízos pueris.
Asqueroso comensal
Carcome a força vital.
Está disseminado
O discurso odioso
No campo minado
Da internet.
O discurso mavioso
Nele rui e soçobra.
Quantos animais
estão à solta
nas redes sociais?
Quanta truculência
sairá da latência?
A internet organizou
A imbecilidade.
A imbecilidade
Desorganizou a internet.
O virtual desvirtuado,
O real espelhado,
O humano idiotizado.

Bruna Xavier de Moro

Mas que ser é este ser humano?

Obra-prima dentre os animais?
Intelecto e razão sem iguais?
Todavia optam em ser seres bestiais
Toda via conduz a este estranhamento
Do que nega a faculdade do entendimento
E, ainda assim, profere todo tipo de julgamento.
Ó hipócrita, tu tens olhos, mas não vês?
Aquele indistinto vulto cambaleante e desfigurado
Revela-se como mais um humano desumanizado.
Ó hipócrita, tu tens olhos, mas não viste?
Aquele que, diariamente, o traje da vilania veste
E despe dos outros sorrisos, alegrias e canduras
Cobrindo-os com uma grei de ultrajes e censuras.
O preconceito enclausura a mente
Torna-se doente, demente!
Ó hipócrita, tu tens ouvidos, mas não ouves?
Aquele que solta a verborrágica pestilência cáustica
Profusão fustigante que ao passante encalça.
As palavras agridem inflexíveis e não se disfarçam
Qual adagas ferrenhas perfuram e transpassam
O respeito alheio, rompem o limiar com despeito.
Sangram os ouvidos, sangra também o peito,
Copiosamente, enquanto o mundo se putrefaz.
Ações brutais que levam ao cru engano.
Mas que ser é este ser humano?

Bruna Xavier de Moro